Fechar os Olhos e Ver

Os sentidos são os instrumentos que usamos para interagir com o que nos cerca, a que chamamos realidade. Assim, abrimos os olhos para o que nos rodeia e tornamo-nos de tal modo dependentes da visão que, de olhos fechados, sentimo-nos muitas vezes assustados e perdidos, com medo que a realidade nos escape. Esta circunstância impede-nos a descoberta do que podemos ver com os olhos fechados.

Os sentidos são os instrumentos que usamos para interagir com o que nos cerca, a que chamamos realidade. Assim, abrimos os olhos para o que nos rodeia e tornamo-nos de tal modo dependentes da visão que, de olhos fechados, sentimo-nos muitas vezes assustados e perdidos, com medo que a realidade nos escape. Esta circunstância impede-nos a descoberta do que podemos ver com os olhos fechados.

Ver com os olhos fechados não significa ver com os pensamentos, que nos podem confundir tanto ou mais que a miríade de observações que os olhos abertos nos trazem. Ver com os olhos fechados é desligarmo-nos dos estímulos exteriores e também das memórias e das imagens que os nossos pensamentos constroem com base em informação a que o nosso ego reage com classificações de gosto ou não gosto, bom ou mau. Ver com os olhos fechados é procurar encontrar o reduto de paz que está dentro de nós quando conseguimos desligar-nos do que nos condiciona, ficando somente no momento presente. É voltar a encontrar a simplicidade de ser, sem máculas, sem expectativas, sem desejos que nos escravizam e nos impedem de ser felizes. É afinal reconhecermos que a nossa realidade é essa presença, essa essência ou alma (chame-se o que quiser), um estado “UAU!” que se caracteriza por paz e felicidade.

Este é o caminho e simultaneamente o objetivo do yoga, que lhe pode mostrar que não precisa de voltar costas a nada do que faz parte da sua vida – afetos, deveres, alegrias e tristezas, mas que há uma maneira de “olhar” para tudo isso que não conduz necessariamente a becos sem saída que lhe bloqueiam a possibilidade de viver.

Como é que isto acontece? 

Constrói-se e/ou descobre-se. Está em nós a capacidade de aí chegarmos, porque aí é aquilo que já somos e já temos. Nascemos assim – livres, felizes, confiantes, com um instinto de sobrevivência que naturalmente nos leva a evitar o que nos causa dor e sofrimento. O problema é que à medida que vamos crescendo nos esquecemos dessa condição e passamos a tomar como inevitável entrar num ciclo que nos faz esquecer e deturpa a imagem de nós mesmos, e sem nos darmos conta vê-mo-nos enredados num sistema que parecia vir trazer-nos realização e bem-estar e afinal acaba a tornar-nos escravos de uma dinâmica que já não tem a ver com as nossas escolhas.

Parar, respirar, fechar os olhos e acalmar a mente, dando espaço para que a inteligência possa impôr-se, é a única maneira de sermos funcionais e felizes.